domingo, 4 de maio de 2014

O CEPO DE MACACAÚBA

O cepo é um pedaço do toro de madeira cortado transversalmente e, a Macacaúba é uma espécie de madeira que era muito utilizada pelo meu saudoso pai, no fabrico de violões, principalmente no fundo e nas laterais, pois possui um desenho muito bonito – esse da foto deve ter sido cortado faz uns quarenta e poucos anos, não chegou a fazer parte do instrumento dedilhável, servindo durante anos para tábua de cortes de carne/frango e legumes.

O meu pai tinha um compadre que morava no interior e, somente vinha visitá-lo quando da cheia do Rio Negro, quando era possível passar com o seu motorzinho de centro pela Ponta Romana I e, adentrar ao Igarapé de Manaus – trazia sempre bijus, bananas pacovas, pé de moleque e farinha d’água, além de muita madeira cortada, principalmente Marupá, Cedro e Macacaúba – os dois praticavam o escambo (troca direta de mercadorias), o caboco levava de volta violões e cavaquinhos para vender no interior.

A Macacaúba em tupi significa “árvore do macaco” - é uma espécie de madeira que é encontrada na Amazônia, principalmente no Baixo Amazonas, com a árvore de médio a grande porte – ele é moderadamente pesada, na cor castanho avermelhada e listras longitudinalmente enegrecidas – fácil de trabalhar, recebendo bom acabamento, sendo utilizada em marcenaria, carpintaria, tacos de assoalho e bilhar, móveis de luxo e instrumentos musicais.

Esse cepo foi cortado para ser um fundo do violão, faltou apenas passar pela serra circular e, pelo serrote para cortá-lo ao meio, porém, não sei por qual motivo o meu pai deu-lhe outra utilidade - acho que foi bem melhor assim, pois se tivesse virado violão, não estaria hoje comigo.

Lembro muito bem do passado, quando ele servia de base para cortar limões e preparo de caipirinhas, corte de bifes/galetos e de pequenos serviços de lutheria, na sua oficina que ficava na Rua Huascar de Figueiredo (nos porões do Solar dos Bríngel).

Eu e os meus irmãos trabalhávamos com o nosso pai até atingir a maioridade, quando conseguíamos o nosso primeiro emprego, abandonávamos a oficina - o trabalho mais penoso era exatamente o corte dessas peças com o serrote, pois ela é muito dura, exigindo muita força e concentração; qualquer descuido perdia toda a peça.


Quando o meu velho adoeceu, muitas ferramentas e instrumentos desapareceram, porém, esse cepo o acompanhou até a sua morte - ficou um tempão esquecido no quarto da casa dos meus falecidos pais – recentemente, resolvi resgatá-lo, estava bastante sujo, passei uma raspadeira, voltando a aparecer os desenhos da madeira - servirá novamente como tábua de cozinha - quem sabe um dia, poderá servir para a finalidade em que foi cortado: virar um lindo fundo de um violão. É isso ai.  

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